It's over!!!!!
Blogger ativista foi "suicidado"
Hoje me deparei com uma notícia meio atrasada, já que o ocorrido foi em dezembro de 2011, porém não é tarde para apresentar essa informação desconhecida por muitos, até porque, querem enterrar fundo essa história.
Tijoladas do Mosquito, um blog de Amilton Alexandre, vulgo mosquito, encontrado morto em sua casa em Palhoça, Florianópolis. A polícia concluiu um possível suicídio, mas os fatos que antecedem o episódio nos deixam com a pulga atrás da orelha.
Mosquito era um dos movimentadores da opinião pública na região e ganhou inimigos devido às críticas e denúncias postadas em seu blog. Era parte em mais de 30 ações que correm na Justiça catarinense e em pelo menos 13 delas aparece como réu. A maior parte dos processos aos quais ele respondia eram por calúnia, difamação ou pedidos de indenização por danos morais. Entre as vítimas aparecem empresários e políticos influentes, como a ministra das Relações Institucionais Ideli Salvatti.
Um de seus alvos no blog era o prefeito de Florianópolis, Dário Berger, que movia uma ação penal privada contra o comunicador. Em audiência desse caso no mês passado, Mosquito foi advertido com um termo de prisão em flagrante por proferir ofensas ao prefeito durante a sessão. Entre as polêmicas, ele também denunciou um caso de estupro envolvendo adolescentes de famílias tradicionais da capital catarinense, um deles o filho de um empresário da comunicação. Na semana passada o Tijoladas do Mosquito saiu do ar por determinação judicial. "Tanta dedicação ao blog levou-me a um isolamento familiar, com oposição a minha atividade, problemas de saúde e outras dificuldades. Nas últimas semanas acusei o nocaute. Não tenho mais como enfrentar as ameaças e retaliações pelo que publico. É sensato dar um tempo", escreveu Amilton. Admitindo que passou dos limites em algumas situações, o blogueiro disse que tentaria reestruturar sua vida partindo para uma "atividade menos tensa" e começaria a dar mais atenção a si mesmo. Deixou o link do Canga Blog para que seus leitores pudessem continuar acompanhando o "arsenal de maldades dos políticos". O jornalista Sérgio Rubim, responsável pelo Canga Blog, foi um dos primeiros a postar informações sobre a morte de Amilton. Nesta quarta-feira, Rubim escreveu que Mosquito era uma pessoa solitária e seu contato com a maioria das pessoas era virtual. "Ele já vinha há dias mandando sinais de que pretendia dar cabo da vida. Sozinho, sem dinheiro, com o seu blog fechado pela Justiça, estava deprimido e parecia não encontrar saída para o fosso em que se meteu." Rubim ainda mencionou que em uma mensagem a um amigo em comum, Mosquito teria postado no Twitter: "O circulo está se fechando. Não vejo mais saída. Acho que vou me matar!". "O Mosquito foi um fenômeno incrível em termos de mobilização de opiniões, se transformou em porta-voz da grande maioria das pessoas revoltadas com os crime cometidos por políticos, desembargadores, agentes do Ministério Público, juízes e conselheiros do Tribunal de Contas que eram incessantemente denunciados e escrachados no Tijoladas do Mosquito", escreveu. Além de defini-lo como "agitador cultural", em sua nota de pesar, o Sindicato dos Jornalistas de Santa Catarina lembrou que Mosquito atuou na Novembrada, durante a ditadura militar e mencionou que "a sociedade perde um defensor da democracia e da cidade e fica mais pobre com a saída de cena de um importante personagem da sua história".
O secretário de Segurança Pública do Estado, César Grubba, solicitou que a morte do blogueiro seja investigada. Mas a polícia está convicta de que Mosquito se matou. Quando a perícia e os investigadores chegaram à sua casa, num bairro nobre de Palhoça, não havia sinais de que outra pessoa tivesse estado ali. De acordo com o investigador Rangel Truppel, tudo indica que Amilton Alexandre usou uma corda feita com lençóis, conhecida como Tereza, para se enforcar. Em prendeu uma das extremidades no teto da casa, a outra no pescoço, subiu numa cadeira e pulou dela. Apesar disso, as investigações continuam até que seja expedido o laudo cadavérico, que apontará a causa da morte.
O que eles tentam abafar?
Fora as motivações políticas, acho que o que mais pesou foi o fato de Amilton ter publicado a acusação de estupro, pois trata-se de famílias poderosas, aquela velha história de filhinhos de papai que cometem crimes e ficam impunes. O caso da denúncia de estupro envolve Sérgio Orlandino Sirotsky apelido Zinho, filho de Sérgio Sirotsky, diretor do grupo RBS, afiliada da rede globo em SC, que teria estuprado uma menina de treze anos. Os grandes veículos da mídia fazem silêncio e tentam até abafam esses nomes, mas a net ta aí, e é só procurar e pensar por si mesmo. Sabe-se por outras fontes que não havia lençol algum no teto da casa, e o suicídio é improvável. Sei que a "Justiça" nessas terras não existe, e nada irá acontecer ao playboyzinho escroto, que está sempre escoltado por seguranças. É simplesmente lamentável isso.
De volta aos nossos sentidos: como nos libertarmos da armadilha do medo?
Por Derrick Jensen
Estou segurando um recorte de jornal de 1996. As bordas estão gastas, e o papel amarelado. A manchete diz: "Mãe urso ataca trens." Os trens mataram seus dois filhotes, então a mãe urso começou atacar trem após trem. Comecei a carregar esse recorte em minha carteira, depois preguei em cima de minha mesa, pois me faz lembrar do que significa ser corajoso, o que significa estar vivo. Costumava pensar que o mundo estava sendo destruído pela ganância, pelo ódio e pela insanidade dos que estão no poder. Claro que ainda penso isso - assim como qualquer pessoa que presta atenção nos fatos - mas eu vejo cada vez mais como nosso temor nos faz colidirmos com essa destruição. Não, não estou usando a mesma ladainha de que, já que uso papel higiênico sou tão culpado pelo desmatamento de florestas como o presidente da Weyerhaeuser (empresa multinacional produtora de papel e celulose). Não estou dizendo que precisamos ter compaixão por aqueles que estão matando o planeta, que precisamos tirar o ódio dos nossos corações antes que possamos impedir aqueles que estão destruindo nossos lares. Não estou perpetuando o pensamento mágico que diz que todos nós somos igualmente responsáveis pela destruição do planeta, e se eu pessoalmente e um monte de outros "ambientalistas" formos coletivamente "puros" o suficiente, "bons" o suficiente, e “amáveis” o suficiente, que as coisas realmente vão dar certo no final.
De modo algum. Pois elas não vão.
Não acho que a mãe urso se preocupou com a "pureza" de seu coração. Ela simplesmente seguiu seu coração para agir contra aqueles que mataram os que ela amava. A minha culpa pelo desmatamento é muito pior do que meu mero uso de papel higiênico. Minha culpa é que eu não impeço fisicamente os desmatamentos, a minha culpa é que eu não defendo meu lar e os lares daqueles (humanos e não-humanos) que eu amo com a ferocidade e o amor dessa mãe urso. Nós sofremos de uma crença errônea de que o amor implica o pacifismo. Não sei se a mãe urso concordaria com isso, nem mesmo as outras mães que eu conheço.
Sempre sou atacado por mães éguas, vacas, ratas, galinhas, gansos, águias, falcões, e beija-flores que achavam que eu estava ameaçando seus filhos. Já conheci várias mães humanas que matariam qualquer um que fosse machucar suas crianças. Se uma mãe rato está disposta a arriscar a vida dela atacando alguém oitocentas vezes maior do que ela, o que isso diz sobre os nossos corações? (A propósito, a rata ganhou.)
Eu digo que amo o salmão que nada no córrego perto de minha casa, mas os salmões estão entrando em extinção, e o que eu faço para ajudá-los? Escrevo sobre eles, canto canções para eles, paro e os admiro com meus olhos cheios d'água, enquanto eles botam seus ovos em córregos lamacentos. Mas o que eu FAÇO? O problema não é complexo. Se eu realmente me importo com os salmões, preciso remover as barragens, preciso impedir o florestamento industrial e a pesca comercial, e preciso impedir o aquecimento global. Essas são na verdade simples tarefas técnicas. Mas eu não as faço.
Por que não?
Pensei em todos os tipos de motivos pseudo-intelectuais, pseudo-espirituais ou pseudo-morais, mas quando sou honesto comigo mesmo, o verdadeiro motivo por trás de todos os outros é que eu tenho medo. Tenho medo de que se eu agir efetivamente a polícia irá me matar ou me colocarão na prisão para sempre. Tenho medo de que se eu agir efetivamente serei marginalizado nessa sociedade. Tenho medo de que se eu agir efetivamente, as pessoas não vão gostar de mim. Elas irão me julgar. Aqui vão algumas perguntas que tenho pensado ultimamente. Se os nazistas ou outros fascistas tomassem conta de toda a América do Norte, o que todos nós faríamos?
Considere a definição de Mussolini sobre fascismo: "O fascismo deveria ser chamado apropriadamente de Corporativismo pois ele é uma fusão do Estado com o poder corporativo." E se esse país ocupado se chamasse de democracia, mas quase todos considerassem as eleições serem falsas, com cidadãos sendo permitidos a elegerem entre diferentes facções do mesmo partido Fascista (ou, segundo Mussolini, Corporativo)? E se o protesto e outras manifestações não violentas fossem enfrentadas pelas tropas de choque e a polícia secreta? Nós revidaríamos? Se um movimento de resistência já existisse, nós nos juntaríamos a ele? E o que faríamos se os que estão no poder instituíssem leis que os permitisse colocar um terço de todos os homens judeus entre dezoito a trinta e cinco anos em campos de concentração? Substitua judeus por afro-americanos e faça a mesma pergunta. Nós resistiríamos se os fascistas irradiassem o campo, envenenassem o fornecimento de alimento, desmatassem o continente, ou deixassem os rios sujos demais para beber ou nadar em suas águas? E se os fascistas não envenenassem só a terra, mas os corpos daqueles que amamos com dioxina - uma das substâncias mais tóxicas conhecidas - e outras substâncias cancerígenas? Em minhas palestras pergunto às pessoas quantas delas amaram pessoas que foram mortas por câncer. Cerca de oitenta por cento levantam as mãos. Agora, resistiríamos se os que estão no poder envenenassem não somente os corpos daqueles que amamos, mas nossos próprios corpos? Se não vamos revidar quando aqueles que amamos estão morrendo e nossos próprios corpos estão sendo envenenados, quando vamos tomar alguma atitude? Cada um de nós deve encontrar o próprio limiar: o ponto do qual nos libertamos dos nossos medos e agimos em prol daqueles que amamos.
Por que estamos tão aterrorizados? Do que temos medo? Nenhuma dessas perguntas é retórica. Elas são, até então, algumas das perguntas mais importantes que devemos perguntar a nós mesmos. No nível mais básico, o medo é a crença de que temos algo a perder. Até um ponto, claro, nós temos muito a perder. Todos sabemos o que os que estão no poder podem fazer àqueles que os ameaçam ou as suas posses. Jeffrey Leuers queimou três picapes em um ato de resistência simbólica, e foi sentenciado a mais de vinte e dois anos de prisão, uma pena muito maior do que a dada a estupradores, àqueles que espancaram suas esposas até a morte, aos presidentes das companhias químicas das quais suas decisões liberam no mundo toxinas que fazem tantos de nós adquirirmos câncer. Se nós fôssemos ameaçar o dito direito dos que estão em poder de converter o mundo em produtos consumíveis para serem vendidos, eles tentariam nos impedir a qualquer custo.
Mas há mais medos também. Sabemos que nós - aqueles de nós que são os beneficiários físicos primordiais da exploração - perderíamos acesso a alguns produtos. O que dizer sobre nós que estamos dispostos a aceitar e destruição do planeta em troca de produtos como o café, chocolate, carros?
Por que estamos tão aterrorizados? Do que temos medo? Nenhuma dessas perguntas é retórica. Elas são, até então, algumas das perguntas mais importantes que devemos perguntar a nós mesmos. No nível mais básico, o medo é a crença de que temos algo a perder. Até um ponto, claro, nós temos muito a perder. Todos sabemos o que os que estão no poder podem fazer àqueles que os ameaçam ou as suas posses. Jeffrey Leuers queimou três picapes em um ato de resistência simbólica, e foi sentenciado a mais de vinte e dois anos de prisão, uma pena muito maior do que a dada a estupradores, àqueles que espancaram suas esposas até a morte, aos presidentes das companhias químicas das quais suas decisões liberam no mundo toxinas que fazem tantos de nós adquirirmos câncer. Se nós fôssemos ameaçar o dito direito dos que estão em poder de converter o mundo em produtos consumíveis para serem vendidos, eles tentariam nos impedir a qualquer custo.
Mas há mais medos também. Sabemos que nós - aqueles de nós que são os beneficiários físicos primordiais da exploração - perderíamos acesso a alguns produtos. O que dizer sobre nós que estamos dispostos a aceitar e destruição do planeta em troca de produtos como o café, chocolate, carros?
Todos nós estamos diante de escolhas. Em larga escala, nós podemos ter automóveis ou podemos ter calotas polares e ursos polares. Nós podemos ter barragens e produtos de papel e madeira, ou podemos ter salmões. Podemos ter caixas de papelão ou podemos ter florestas. Podemos ter eletricidade e um mundo devastado, ou simplesmente não podemos ter nada disso: até mesmo a energia solar requer uma infraestrutura industrial. Podemos ter frutas importadas, vegetais, e café, ou podemos ter ao menos comunidades intactas humanas e não-humanas na América Latina. Isso significa que deveríamos nos desesperar? Talvez. O desespero certamente é uma resposta apropriada a uma situação desesperante. Mas mais do que isso, nós deveríamos simplesmente reconhecer que essas escolhas na verdade não são escolhas: por mais de noventa por cento de nossa existência, os humanos viveram alegremente sem destruir suas comunidades ou o planeta. Essas escolhas são o resultado de um modo de vida aberrante e, sinceramente, bizarro. Em um nível mais pessoal, podemos deixar o barco correr em uma cultura que não nos é muito útil - não nos faz realmente felizes; não nos deixa realmente confortáveis; não nos deixa realmente seguros; mas apenas oferece ilusões de felicidade, conforto e segurança - ou podemos começar o difícil trabalho de procurar em nossos próprios corações, para perguntarmos quem e o que amamos, quem e o que nos faz sentirmos fortes o suficiente para mudarmos nossas vidas, para lutarmos, para vivermos. E nossa própria felicidade? Há muito tenho o hábito de perguntar as pessoas se elas gostam de seus empregos: cerca de 90 por cento dizem não. O que significa quando a vasta maioria das pessoas passa a maior parte de suas horas fazendo coisas que elas preferem não fazer? E a sua saúde? E a saúde de seus filhos? E a felicidade deles (e eu não quero dizer os diversos brinquedos que eles possuem, mas a real qualidade de suas vidas)? E a saúde e felicidade do lugar onde você vive? E um planeta que não está sendo destruído? O que é mais importante para você? Não podemos ter tudo. A crença de que podemos é uma das coisas que tem nos levado a essa terrível condição. Se insanidade pudesse ser definida como a perda da conexão com a realidade física, para acreditarmos que podemos ter tudo - para acreditarmos que podemos simultaneamente desmantelar um mundo e viver no mesmo; para crermos que podemos perpetuar o uso de energia mais do que o sol fornece; parar crermos que podemos retirar do mundo mais do que ele nos dá; para crermos que um mundo finito suporta um crescimento infinito, um crescimento econômico muito menos infinito, que converte vários seres vivos em objetos mortos (a produção industrial, no centro, é a conversão da vida - árvores ou montanhas, por exemplo - em morte - papéis e latas de alumínio) - é insanidade. No fundo, todos nós sabemos disso. Mesmo assim nos não podemos falar por nós mesmos, pois temos medo. Temos medo de perder o que temos. E assim, não fazemos nada.
Mas temos medo de algo mais. Temos medo de não pertencermos: mesmo com o fato de todo o sistema social ser insano, nós ainda temos medo de sermos excluídos dele. Ontem mesmo levei minha mãe ao Wal-Mart para ela trocar um novo telefone que não funcionava. Agora, antes que você me chame de hipócrita, saiba que na minha cidade o Wal-Mart já fez seu estrago, e a Radio Shack (NOTA DE TRADUÇÃO: loja de departamentos de eletrônicos) era sua única outra escolha. Havia uma grande fila na seção de trocas, e como estava um belo dia, esperei do lado de fora. Em um banco havia uma mulher sentada comendo um sanduíche, e em outro, um homem fumando cigarro. Eu sempre prefiro a companhia de arbustos aos humanos mesmo, então sentei na calçada perto de umas piracantas (arbusto conhecido como espinho de fogo) "aprisionadas". Agora aí que está a questão: eu podia notar que as pessoas que estavam de passagem, especialmente os funcionários do Wal-Mart, estavam incomodados por eu estar sentado em um lugar não-autorizado. E sei que o problema era com o lugar que eu estava sentado: não tinha um cabelo comprido não-autorizado, nem um cheiro não autorizado, nem roupas sujas não-autorizadas, nem mesmo estava percebendo aquilo de uma maneira não-autorizada. Mas eu sentia que as pessoas naquele lugar, naquele momento, queriam que eu saísse de lá, e consequentemente, eu podia sentir eu mesmo querendo sair daquele lugar, para entrar na linha. Aquele sentimento era quase insuportável.
As mesmas pressões psicológicas estariam presentes quando fui a uma banca de revistas, escolhendo entre Soldier of Fortune, Penthouse ou Car and Driver. A outro nível, essa mesma pressão poderia me fazer parar na frente de uma árvore centenária, com uma moto-serra na mão apontando para ela, ou, em outro caso, apontar uma pistola para um judeu russo, ajoelhado ao lado de uma cova cheia de corpos contorcidos. Nunca devemos subestimar o poder da pressão social interna para nos conformarmos.
Uma das coisas mais inteligentes que os nazistas fizeram foi agregar a razão, a esperança e o medo a curto-prazo. Em cada passo da história, os judeus não tinham interesse em resistir: muitos judeus tinham a esperança - e essa esperança era cultivada pelos nazistas - que se eles fossem obedientes, e seguissem as regras daqueles no poder, suas vidas não iriam piorar, e eles não seriam assassinados. Eles se deparavam com essas questões: ter uma carteira de identidade, fazer parte de um gueto, entrar no caminhão de transporte de judeus, ou resistirem e provavelmente serem assassinados. O que acontece quando nos fazemos a mesma pergunta? Iríamos entrar nos chuveiros, ou resistir e nos matarem?
Os judeus que participaram da insurreição do gueto de Varsóvia - incluindo aqueles que se arriscaram no que achavam ser missões suicidas - tiveram uma maior taxa de sobrevivência do que aqueles que obedeceram as regras dos nazistas. Nunca se esqueça disso.
Outra coisa importante: um chefe de segurança de alto cargo do regime do Apartheid na África do Sul, uma vez disse em uma entrevista o que ele mais temia do grupo rebelde Congresso Nacional Africano (ANC). Ele não tinha tanto medo das ações violentas do ANC; o que ele mais temia era que o ANC poderia convencer a maioria oprimida dos africanos a desobedecerem a "lei e ordem" imposta pelo regime, ou seja, pensar e sentir por si próprios. Até mesmo as mais altas e bem treinadas "forças de segurança" do mundo não seriam, segundo ele, capazes de deter aquela ameaça. Quando começamos a perceber que as leis e os decretos daqueles no poder não carregam nenhuma herança moral ou peso ético, nós nos tornamos os seres humanos livres que nascemos para ser, capazes de dizer sim e capazes de dizer não. Lembre-se disso também. No século XVI, Éttiene de la Boétie nos faz lembrar de quando os poderosos são insaciáveis, a submissão é fatal - que quanto mais nos submetemos à dita "lei e ordem" daqueles no poder, mais eles exigirão de nós. Ele escreveu que "quanto mais a tirania rouba, mais eles anseiam por mais, mais eles arruínam e destroem; quanto mais você se cede à eles e os obedece, mais eles se tornam fortes e poderosos, prontos para nos aniquilar e destruir. Mas se nada é cedido à eles, se, sem qualquer violência eles simplesmente são desobedecidos, tornam-se nus e assim como quando a raiz não recebe nutrientes, toda a árvore definha e morre." Claro, temos medo. Há muito a temer. Mas com um mundo sendo destruído diante dos meus olhos, essa crença de que temos algo a perder torna-se uma ilusão. E o melhor guia que conheço para me ajudar a distanciar dessas ilusões é o meu coração. Meu coração nunca me desapontou. Penso frequentemente naquela mãe urso, assim como penso também nas mães éguas, vacas, ratas, galinhas, gansos, águias, falcões e beija-flores que defendem aqueles que amam. Penso na coragem das abelhas que vieram para cima de mim, que entravam no meio do meu cabelo para encontrar um meio de me picar, que fizeram com que eu me distanciasse de suas colméias, ao custo de suas vidas. Penso na coragem do salmão, que volta ano após ano, que continua apesar de tudo o que estamos fazendo com ele, ou melhor, tudo que permitimos que seja feito com eles. E eu percebo que antes que eu possa salvá-los, tenho que confiar neles para que eles me salvem, para que me ensinem e me façam lembrar o que é amar, o que é enfrentar meus medos, o que é agir em defesa daquilo e daqueles que amo.

Genealogia do fanatismo
Emil M. Cioran
Em si mesma toda ideia é neutra ou deveria sê-lo, mas o homem a anima, projeta nela suas paixões e suas demências; impura, transformada em crença, se insere no tempo, adota a forma de acontecimento: o passo da lógica para a epilepsia está consumado… Assim nascem as ideologias, as doutrinas e as farsas sangrentas. Idólatras por instinto tornam incondicionados os objetos de nossos sonhos e de nossos interesses. A história não é mais do que um desfile de falsos Absolutos, uma sucessão de templos em honra de pretextos, um aviltamento do espírito ante o Improvável. Mesmo quando se afasta da religião, o homem permanece sujeito a ela; consumindo-se em forjar simulacros de deuses, os adota depois febrilmente: sua necessidade de ficção, de mitologia, triunfa sobre a evidência e o ridículo. Sua capacidade de adorar é responsável por todos os seus crimes: ele que ama indevidamente a um deus obriga os outros a amá-lo, planejando exterminá-los se recusam. Não há intolerância, intransigência ideológica ou proselitismo que não revelem o fundo bestial do entusiasmo. Que perca o homem sua faculdade de indiferença: converte-se num potencial assassino; que transforme sua ideia em deus: as consequências são incalculáveis. Nunca se mata tanto quanto se mata em nome de um deus ou de seus sucedâneos: os excessos suscitados pela deusa Razão, pela ideia de nação, de classe ou de raça são semelhantes aos da Inquisição ou da Reforma. As épocas de fervor se sobressaem nas façanhas sanguinárias: Santa Tereza não podia deixar de ser contemporânea dos autos de fé e Lutero da matança dos camponeses. Nas crises místicas, os gemidos das vítimas são paralelos dos gemidos de êxtase… Patíbulos, calabouços e masmorras nunca prosperam tanto quanto à sombra de uma fé, dessa necessidade de crer que tem infestado os espíritos para sempre. O diabo empalidece junto a quem dispõe de uma verdade, de sua verdade. Somos injustos com os Neros ou os Tibérios: eles não inventaram o conceito de herético: não foram senão sonhadores degenerados que se divertiam com as matanças. Os verdadeiros criminosos são os que estabelecem uma ortodoxia sobre o plano religioso ou político, os que distinguem entre o fiel e o cismático. Enquanto nos recusarmos a admitir o caráter intercambiável das ideias, o sangue corre…baixo das resoluções firmes se ergue um punhal; os olhos inflamados pressagiam o crime. Jamais o espírito da dúvida, afligido pelo hamletismo, foi pernicioso: o princípio do mal reside na tensão da vontade, na inépcia para o sossego, na megalomania prometeica de uma espécie que reinventa o ideal, que arrebenta debaixo de suas convicções e a qual, por haver-se comprazido em depreciar a dúvida e a preguiça — vícios mais nobres do que todas as virtudes —, se embrenhou num caminho de perdição, na História, nessa mescla indecente de banalidade e apocalipse… Ela está plena de certezas: suprime-as e suprimireis sobretudo as suas consequências: reconstituireis o paraíso. O que é a Queda senão a busca de uma verdade e a certeza de havê-la encontrado, a paixão por um dogma, o estabelecimento de um dogma? Disso resulta o fanatismo — tara capital que dá ao homem o gosto pela eficácia, pela profecia e pelo terror —, lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura e as exalta… Só escapam os céticos (ou os preguiçosos e os estetas), porque não propõem nada, porque — verdadeiros benfeitores da humanidade — destroem os preconceitos e analisam o delírio. Sinto-me mais seguro junto a um Pirro do que junto a um São Paulo, porque um saber de anedotas é mais doce do que uma santidade desenfreada. Em um espírito ardente encontramos a ave de rapina disfarçada; não poderíamos nos defender com êxito das garras de um profeta… Quando eleva a voz, seja em nome do céu, da cidade ou de outros pretextos, afastai-vos dele: Sátiro de vossa solidão, não os perdoa o viver sem as suas verdades e seus arrebatamentos; quer fazê-los compartilhar de sua histeria, do seu bem, impô-lo a nós e desfigurar-nos. Um ser possuído por uma crença e que não buscasse comunicá-la a outros é um fenômeno estranho ao mundo, donde a obsessão pela salvação torna a vida irrespirável. Olhem em torno de vós: Por toda parte vermes que predicam; cada instituição traz uma missão; os povoamentos têm seu absoluto como templos; a administração com os seus regulamentos: metafísica para uso de macacos… Todos se esforçam por remediar a vida de todos: aspiram a isto até os mendigos, inclusive os incuráveis; as calçadas do mundo e os hospitais estão cheios de reformadores. A ânsia de chegar a ser fonte de acontecimentos atua sobre cada um como uma desordem mental ou uma maldição livremente escolhida. A sociedade é um inferno de salvadores. O que buscava Diógenes com sua lanterna era um indiferente…Basta que eu escute alguém falar sinceramente de ideal, futuro, de filosofia, escutá-lo dizer “nós” com uma inflexão de segurança, convocar os “outros” e sentir-se seu intérprete, para que o considere meu inimigo. Vejo nele um tirano falido, quase um verdugo, tão odioso como os tiranos e verdugos de grande classe. É que toda fé exerce uma forma de terror, tanto mais temível quando os “puros” são os seus agentes. Suspeita-se dos ladinos, dos velhacos, dos trapaceiros, entretanto, não saberíamos imputar-lhes nenhuma das grandes convulsões da história; não acreditando em nada, não espionam vossos corações, nem vossos pensamentos mais íntimos; os abandonam a vossa acomodação, o vosso desespero ou a vossa inutilidade; a humanidade lhes deve os poucos momentos de prosperidade que tem conhecido; são eles os que salvam os povos que os fanáticos torturam e os “idealistas” arruínam. Sem doutrinas, não têm mais do que caprichos e interesses, vícios acomodatícios, mil vezes mais suportáveis do que o despotismo dos princípios; porque todos os males da vida vêm de uma “concepção de vida”. Um homem político educado deveria aprofundar-se nos sofistas antigos e tomar lições de canto; e de corrupção. O fanático é incorruptível: assim como mata por uma ideia, pode igualmente morrer por ela; nos dois casos, tirano ou mártir, é um monstro. Não há seres mais perigosos que os que sofreram por uma crença: os grandes perseguidores se recrutam entre os mártires aos quais não se cortou a cabeça. Longe de diminuir o apetite pelo poder, o sofrimento o exaspera: por isso o espírito se sente mais a gosto na companhia de um fanfarrão do que de um mártir; e nada lhe repugna tanto como esse espetáculo no qual se morre por uma ideia. Farto do sublime e de carnificinas sonha com um tédio provinciano a escala universal, com uma História cujo estancamento seria tal que a dúvida se apresentaria como um acontecimento e a esperança como uma calamidade.
Emil M. Cioran
tradução: José Thomaz Brum
“Queremos a liberdade pela liberdade e através de cada circunstância particular. E, ao querermos a liberdade descobrimos que ela depende inteiramente da liberdade dos outros, e que a liberdade dos outros depende da nossa. Sem dúvida, a liberdade como definição do homem não depende de outrem, mas, uma vez que existe a ligação de um compromisso, sou obrigado a querer ao mesmo tempo a minha liberdade e a liberdade dos outros; só posso tomar a minha liberdade como um fim se tomo igualmente a dos outros como um fim.”(Jean Paul Sartre - O Existencialismo é um Humanismo)

Este é o terceiro longa-metragem do aclamado cineasta chileno Alejandro Jodorowsky, o filme, repleto de ritos e símbolos, é simplesmente estranho e louco, assim como sua trilha sonora, que é uma mistura entre o jazz,rock psicodélico, cornetas, tambores tribais, cânticos e teclados freak.
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